Aula 2 e 3 – Paulo Filósofo da Administração - Contexto


Introdução ao Paulo apóstolo como Filósofo da Administração:

Uma perspectiva hermenêutica da inter-relacionalidade1

Plínio Marcos Tsai2

Para referência ABNT (formato on‑line)

TSAI, Plínio Marcos. Introdução ao Paulo apóstolo como Filósofo da Administração: uma perspectiva hermenêutica da inter-relacionalidade.. Plínio Marcos Tsai, São Paulo, 2026. Disponível em: https://plinio.pramana.org.br/fa2-introducao-ao-paulo-como-filosofo-da-administracao-uma-perspectiva-hermeneutica-da-inter-relacionalidade/. Acesso em: (indicar – mês da sua pesquisa), (indicar – ano da sua pesquisa).


Resumo

A presente exposição visa a uma perspectiva hermenêutica contemporânea sobre o pensamento do Apóstolo Paulo como documento filosófico, situando-o em seu contexto intelectual e cultural. A partir da Teoria de Rede Inter-Relacional (TSAI, 2024), fundamentada nos princípios filosóficos do budismo e do taoísmo, analisamos Paulo como elemento de uma rede complexa de influências: o helenismo, o estoicismo, o platonismo popular, a tradução da Septuaginta para o grego comum (koine), o farisaísmo e a diáspora judaica. Em seguida, examinamos o corpus paulino, distinguindo as cartas autênticas das deutero-paulinas e compreendendo a carta como gênero filosófico. Propomos, depois disso, uma perspectiva hermenêutica a partir da leitura filosófica de Paulo, com a análise conceitual dos termos gregos em fluxo relacional entre contextualização e filosofia da administração. Por fim, realizamos um exercício de leitura comparativa entre 1Coríntios 1–2 e o Górgias de Platão, identificando o vocabulário filosófico paulino e suas ressignificações à luz da relacionalidade.

Palavras-chave: Paulo de Tarso; Filosofia da Administração; Teoria de Rede Inter-relacional; Hermenêutica Contemporânea; Lógica relacional.

Introdução

Seria possível ler os escritos de Paulo e ver neles uma Filosofia Cristã aplicável para a Administração contemporânea? Essa questão nos coloca diante de um problema hermenêutico fundamental: em que medida podemos ler os textos do Apóstolo Paulo, escritos no contexto das comunidades cristãs nascentes e com finalidades pastorais, como documentos filosóficos? E, mais especificamente, que contribuição pode oferecer o pensamento paulino para a formação do administrador contemporâneo?

Para responder a estas questões, adotaremos como ferramenta hermenêutica a Teoria de Rede Inter-Relacional desenvolvida por Plínio Marcos Tsai (2024). Como vimos na Aula 1, esta teoria, inspirada nos elementos do budismo (Escola Centrista de Nāgārjuna) e do taoísmo (Escola do Tao de Laozi e Zhuangzi), postula que a realidade não é composta por substâncias isoladas e independentes, mas por redes de relações mutuamente determinantes. Aplicada à leitura de Paulo, esta perspectiva nos permite compreendê-lo não como um pensador isolado, mas como um elemento em rede constituída de influências (fluxos relacionais) culturais, onde selecionamos, para fins da presente análise, os fluxos das influências religiosas e filosóficas.

O objetivo desta exposição é, portanto, mapear esta rede, identificando seus principais fluxos condutores e compreendendo como Paulo os articula em seu pensamento. Tomamos como ponto de partida, o fato de que Paulo não é um filósofo sistemático no sentido grego clássico, tampouco é um repetidor de tradições religiosas. Como pensador original que, situado na encruzilhada entre o mundo grego e o mundo hebraico, realizou uma fusão de redes culturais por meio do fluxo religioso, que se estende até nossos dias. Um dos aspectos desta rede nova criada por Paulo é que ela pode ser objeto de uma hermenêutica (interpretação) para a reflexão sobre a gestão das organizações.

2. O mundo intelectual de Paulo: uma rede de influências

Para compreender o pensamento de Paulo, é necessário situá-lo em seu contexto intelectual. Aplicando a Teoria de Rede Inter-Relacional, podemos identificar os principais elementos que compõem os fluxos relacionais que constituem a nova rede do cristianismo paulino. Para a identificação destes elementos é preciso investigar os elementos culturais nos quais Paulo estava inserido e quais deles foram inseridos em sua obra: o cristianismo para os gentios.

2.1 Helenismo, Estoicismo e Platonismo Popular

O primeiro elemento desta rede é o helenismo. Após as conquistas de Alexandre Magno (séc. IV a.C.), a cultura grega difundiu-se por todo o Mediterrâneo oriental, criando um ambiente cultural comum (koiné) que perdurava até o tempo de Paulo. Este ambiente incluía não apenas a língua grega. Estavam presentes ali uma cultura formada por conceitos filosóficos, categorias de pensamento e modos de argumentação que constituíam a identidade, a ética, da vida intelectual da época.

Dentro deste horizonte helenístico, duas correntes filosóficas exerceram influência particular sobre o ambiente intelectual do primeiro século:

  1. O estoicismo, fundado por Zenão de Cítio (séc. III a.C.), enfatizava a razão universal (logos) que governa o cosmos, a ética da virtude e a ideia de que todos os seres humanos participam da mesma razão divina. Paulo demonstra conhecimento de temas estoicos, como evidenciado em seu discurso no Areópago de Atenas (At 17,16-34), onde cita poetas estoicos e dialoga com a noção de que “somos também sua geração”.

  1. O platonismo popular, por sua vez, difundia noções como a distinção entre mundo sensível e mundo inteligível, a imortalidade da alma e a centralidade do conceito de “participação” (méthexis). Estas ideias, mesmo quando não explicitamente citadas, forneciam categorias que permeavam a linguagem filosófica e religiosa da época.

Na perspectiva metodológica da Teoria de Rede Inter-relacional, é importante compreender que Paulo não “adotou” ou “rejeitou” estes fluxos, mas os fez participantes de sua rede de identidade cristã por meio de uma interpretação com centralidade no elemento soteriológico central de seu pensamento, a saber, Jesus Cristo, o Messias crucificado e ressuscitado para todos os povos. Como ensina o princípio da mútua determinação (pratityasamutpāda):

“Algo só existe a partir de não-algo, de outro algo. E esse outro algo só existe porque existe o algo inicial, assim os conceitos existem por mútua determinação, as coisas existem por mútua determinação, e os indivíduos igualmente” (TSAI, 2024, p. 154).

Assim, o pensamento de Paulo é determinado por suas relações conceituais e culturais com o helenismo, diante da necessidade de construir continuamente a sua rede relacional ética expansiva que podemos denominar como aquela do cristianismo para os gentios. De certo modo, pela cultura brasileira, especificamente aquela da religião como identidade majoritária, essa perspectiva hermenêutica que fazemos de Paulo também nos posiciona hoje dentro do fluxo sobre como compreendemos as tradições cristãs. Se usássemos uma qualquer inteligência artificial para interpretar o excerto acima, ela diria algo como: não há influências unidirecionais, mas relações de determinação recíproca.

2.2 A Septuaginta e a tradução conceitual hebraico-grega

O segundo elemento fundamental da rede paulina é a Septuaginta (LXX), a tradução das Escrituras Hebraicas (Tora, Neevim e Ketuvin) para o grego, realizada em Alexandria entre os séculos III e II a.C. Este evento é de importância central para a compreensão do pensamento paulino, uma vez que se constitui como o primeiro grande esforço de tradução conceitual entre o mundo hebraico e o mundo grego.

A Septuaginta não é uma tradução literal, uma vez que não é possível a equivalência direta entre uma palavra e outra em qualquer idioma que exista, na condição de se formar um corpus predicativo com conteúdo religioso ou filosófico, uma vez que invariavelmente ocorre uma ressignificação de conceitos, no caso, hebraicos, para as categorias de outra língua e cultura, novamente, no caso, as gregas. Vejamos algumas possíveis transformações de alguns termos fundamentais, como:

Torá (Lei) torna-se nomos; Tsedakah (justiça) torna-se dikaiosyne; Hesed (misericórdia) torna-se eleos; Emunah (fidelidade) torna-se pistis.

Cada uma destas traduções (acima) é, na verdade, uma interpretação dos termos, e o que se segue de imediato é a sua transposição para os valores de uma rede cultural de costumes e significações éticas, da identidade. Assim, o conceito grego carrega consigo toda uma tradição filosófica que não estava presente no original hebraico. Ao utilizar a Septuaginta como sua Escritura (como faz na quase totalidade de suas citações do Antigo Testamento), Paulo herda não apenas o texto, mas também esta camada interpretativa. Ele passa a estar inserido na rede cultural grega. Temos aqui o princípio da interfusão de redes culturais. Toda a tradução demanda necessariamente a interfusão cultural. A Teoria de Rede Inter-Relacional nos ajuda a compreender este fenômeno a partir do princípio da superimposição/atribuição (samāropa):

“O eu inerentemente existente, experimentado conceitualmente e vividamente pela mente, ocorre mediante uma atribuição ou superimposição (samāropa), que traz em si uma dualidade, de afirmação e de superação do sofrimento” (TSAI, 2024, p. 156).

Analogamente, os conceitos bíblicos recebem, na Septuaginta, uma superimposição de significados gregos que não lhes pertenciam originalmente. Esta superimposição não é um erro epistemológico, neste caso, mas a condição da epistêmica para uma transmissão que contenha uma ressignificação interfusa. Paulo age dentro desta dupla rede de significação, produzindo novos sentidos a partir da mútua-determinação entre rede cultural hebraica e rede cultural grega.

2.3 Farisaísmo e diáspora: um judeu helenizado

O terceiro fluxo da rede paulina é sua própria hagiografia (biografia). Paulo apresenta-se como “hebreu filho de hebreus” (Fp 3,5), formado aos pés de Gamaliel, um dos mais respeitados mestres fariseus de Jerusalém (At 22,3). O farisaísmo era uma corrente do judaísmo que enfatizava a observância minuciosa da Lei, a crença na ressurreição (vinda da cultura helênica) e a tradição oral rabínica, como complemento da Tanak (equivalente próxima da Biblia helênica, a Septuaginta) escrita.

Paralelamente, Paulo era natural de Tarso, na Cilícia, uma importante cidade helenística. Era cidadão romano (At 22,25-28), o que indica posição social elevada. Esta dupla pertença (fariseu de formação e judeu da diáspora) faz de Paulo um elemento cultural central (embora não seja algo incomum) para a rede cultural do primeiro século.

O conceito de diáspora é particularmente importante. Os judeus dispersos pelo Império Romano viviam em permanente negociação entre a fidelidade às tradições ancestrais e a participação na cultura helenística circundante no mundo do comércio. Esta negociação produzia formas originais de pensamento, que não eram nem puramente “judaicas” nem puramente “gregas”, mas híbridas, mestiças, relacionais.

Aplicando a Teoria de Rede Inter-relacional, podemos compreender a identidade de Paulo para além de uma ontologia reificada, uma substância identitária metafisica fixa (“judeu” ou “grego”), mas como uma posição na rede que se define por suas relações:

“Cada joia representa um indivíduo e tem como característica ser completamente transparente como um cristal puro, mas capaz de refletir todas as coisas, a totalidade de todas as joias. Assim, cada joia reflete todas as demais, e cada reflexo das joias contém em si o reflexo total” (TSAI, 2024, p. 150).

Aplicando o conceito do excerto acima, Paulo refletiria em seu pensamento as múltiplas influências que o constituem, e cada uma destas influências é, por sua vez, transformada por esta reflexão. O resultado é um pensamento original que não pode ser reduzido a nenhuma de suas fontes isoladamente.

3. O Corpus Paulino: critérios de leitura filosófica

Superada a questão do contexto, passamos agora ao exame do corpus paulino, ou seja, o conjunto de cartas atribuídas a Paulo no Novo Testamento. Também aqui a Teoria de Rede Inter-relacional oferece ferramentas interessantes para uma leitura filosoficamente orientada.

3.1 Cartas autênticas e as Cartas deutero-paulinas

A crítica histórico-crítica dos séculos XIX e XX estabeleceu distinções entre as cartas que podem ser atribuídas com segurança ao próprio Paulo e aquelas que, embora trazendo seu nome, teriam sido escritas por discípulos em gerações posteriores (as chamadas “deutero-paulinas”).

Geralmente são consideradas autênticas: (1) Romanos; (2) 1ª Coríntios; (3) 2ª Coríntios; (4) Gálatas; (5) Filipenses; (6) 1ª Tessalonicenses; e (7) Filemom. E são consideradas deutero-paulinas (ou pseudepígrafas): (1) Efésios; (2) Colossenses; (3) 2ª Tessalonicenses (4) 1ª Timóteo; (5) 2ª Timóteo, e (6) Tito. Esta distinção é relevante para a leitura filosófica porque indica diferentes momentos e contextos da tradição paulina. No entanto, à luz da Teoria de Rede Inter-relacional, podemos compreender que mesmo as cartas deutero-paulinas não são meras “falsificações”, mas desenvolvimentos relacionais do pensamento de Paulo em novas redes históricas e comunitárias. O princípio do fluxo relacional (dao) nos ajuda a compreender este fenômeno:

“O princípio do fluxo relacional é o caráter complementar de tudo e de todas as coisas, composto por uma rede constituída de elementos básicos que contêm o mesmo modelo: elementos básicos que se relacionam de maneira complementar mutuamente determinante, pela transformação Yin Yang” (TSAI, 2024, p. 158).

O pensamento de Paulo se caracteriza por um fluxo que se transforma ao longo do tempo e nas diferentes comunidades. Essa transformação constante, essa mutabilidade eficiente diante da resolução de problemas e superação de obstáculos na construção da sua rede de cristianismo para os gentios caracteriza o modo de pensar do princípio do dao. As cartas deutero-paulinas são momentos deste fluxo, que contém conceitos vindos da tradição tão legítimos quanto aqueles das cartas originais no sentido de entendimento sobre a compreensão da rede paulina do cristianismo para os gentios.

3.2 A carta como gênero filosófico

Um segundo aspecto fundamental é a compreensão do gênero literário das cartas. Paulo não escreve tratados filosóficos sistemáticos, como Platão ou Aristóteles. Escreve cartas. Considerando que a carta é, essencialmente, um diálogo à distância, como hoje temos o e-mail, poderíamos pensar em termos dos textos como correios eletrônicos. Se fosse hoje, teríamos e-mails de Paulo, e isso facilitaria bastante. Não temos. Assim a carta escrita pressupõe uma comunidade, problemas específicos, e uma relação prévia entre remetente e destinatários. Embora a busca de Paulo seja formular verdades universais, de cunho soteriológico, elas surgem a partir de intervenções em situações particulares que, embora sejam religiosas na categoria ética, são quase sempre relacionais.

Este caráter dialógico da carta aproxima-a do gênero do diálogo filosófico praticado por Platão. Assim como os diálogos platônicos não apresentam uma doutrina pronta, mas um processo de investigação coletiva, as cartas paulinas não expõem uma “teologia sistemática”, mas um pensamento em movimento, em resposta a questões culturais próprias do seu tempo. Neste sentido, a Teoria de Rede Inter-relacional, com seu princípio da oposição complementar (yin-yang), pode trazer uma certa iluminação: assim como o diálogo platônico articula perguntas e respostas, as cartas paulinas articulam os fluxos relacionais entre o ensinamento recebido e as situações ocasionais, produzindo redes menores dentro da rede maior, compostas por elementos provisórios e situadas dentro de um contexto, antes de chegar na caracterização dos elementos da sua rede de cristianismo para os gentios.

3.3 Paulo na hermenêutica situacional

Esta compreensão do gênero epistolar leva a uma conclusão metodológica fundamental: Paulo não é um teólogo sistemático. Suas afirmações não podem ser isoladas de seus contextos e transformadas em princípios universais. Elas são respostas a situações comunitárias, e sua validade é relacional, ou seja, depende da adequação entre o ensinamento e a situação à qual se dirige. Isto não significa, contudo, que não haja coerência no pensamento paulino. A coerência não é a de um sistema lógico-dedutivo, ela está mais inclinada para ser aquela de uma rede de relações (fluxos) onde cada afirmação (elemento) se conecta com as demais sem perder sua especificidade contextual (identidade condicionada).

O princípio budista da verdade convencional e verdade última (satyadvaya) nos ajuda a compreender esta dupla dimensão:

“A verdade convencional é uma falsidade porque ela é um produto direto da superimposição de um estatuto ontológico último nos indivíduos, nas coisas e nos acontecimentos, que não pode ser encontrado de maneira analítica, só possui sua existência mediante a admissão de um axioma metafísico. A verdade última é uma verdade porque é um produto direto de um conhecimento correto sobre o estatuto existencial interdependente de todas as coisas” (TSAI, 2024, p. 153-154).

Assim, as afirmações paulinas em contextos particulares são “verdades convencionais”, o que significa que são respostas que são aplicadas e adaptadas para situações específicas, mas que não devem ser reificadas em princípios absolutos. Em relação a verdade última do pensamento paulino, ela seria a sua visão relacional da realidade, que se manifesta de formas diferentes em contextos diferentes. Isso significa que o conceito paulino do Espírito Santo acompanha a concepção do Evangelho de João de que o Espírito sopra onde quer, ou seja, o Espírito se adapta aos tempos e lugares, mas sem que Cristo deixe de ser o centro da revelação de Deus, o sentido último da vida pessoal, e o centro da organização comunitária.

4. Ler Paulo filosoficamente: uma proposta hermenêutica

A partir destas considerações, podemos propor uma perspectiva hermenêutica de leitura filosófica de Paulo aplicado a Administração e fundamentado na Teoria de Rede Inter-relacional. Com isso temos três perspectivas que se tornam como que fluxos relacionais que convergem sobre o pensamento paulino.

4.1 Perspectiva fenomenológico: a suspensão do juízo confessional

O primeiro movimento é a suspensão do juízo confessional (epoché), inspirada na perspectiva fenomenológica de Edmund Husserl. Trata-se de colocar entre parênteses, de excluir momentaneamente as crenças religiosas prévias (sejam de adesão ou de rejeição) para permitir que o texto se manifeste em uma luz mais próxima da sua composição originária. Mas este movimento de suspensão do juízo analítico próprio não significa negar o elemento religioso dos textos paulinos, mas suspender o julgamento sobre sua verdade ou falsidade confessional para examiná-los como documentos de pensamento humano, dentro da razão natural. O objetivo é acessar a razão conceitual própria apenas humana, os argumentos, as categorias filosóficas que operam no texto, independentemente de sua pretensão teológica.

A Teoria de Rede Inter-relacional justifica este procedimento pelo princípio da vacuidade (śūnyata):

“A vacuidade é a relacionalidade absoluta, a ausência completa de quaisquer substâncias últimas e de qualquer característica ontológica metafísica imutável. Não se trata tampouco de um materialismo radical, pois esse seria um niilismo absoluto, que poderia ser tomado também como uma substância última, e com isso estaria conceituado como uma relacionalidade relativa. O que existe na Teoria da Rede Inter-relacional é a interdependência, mas destituída de seu caráter soteriológico budista nagarjuniano originário, com isto queremos dizer, as questões relativas as Quatro Nobres Verdades tal como vistas na perspectiva budista tradicional” (TSAI, 2024, p. 150).

Assim, o exercício filosófico de suspender o juízo confessional é o mesmo que ler o texto como se não houvesse uma “essência” religiosa metafísica que deva ser aceita ou rejeitada. Ele está inserido dentro da vacuidade da substância última e aberto a múltiplas leituras, entre as quais a leitura filosófica é uma possibilidade legítima.

4.2 Análise conceitual: rastreamento de termos gregos

O segundo movimento é a análise conceitual, que consiste na investigação analítica dos termos gregos utilizados por Paulo e na investigação de suas ressonâncias filosóficas. Por exemplo, termos como, Sophia (sabedoria), Logos (palavra, razão), Dynamis (poder), Dikaiosyne (justiça), Pistis (fé, fidelidade), Gnosis (conhecimento)

Syneidesis (consciência), Physis (natureza), Nomos (lei), e assim por diante. Cada um destes termos carrega uma história filosófica que precede a existência de Paulo. Investigar esta história é fundamental para compreender o que Paulo está criando ao utilizá-los e, ainda mais, ao usar uma interfusão de significados para novos contextos. A Teoria de Rede Inter-relacional ilumina este procedimento pelo princípio da interfusão:

“O princípio de tudo é a vacuidade em repouso, a verdade última, a unidade (yī, 一); as coisas são o seu movimento, a verdade convencional, a multiplicidade (yīqiè, 一切). Assim, verdade e falsidade são aspectos da mesma realidade única. Pelo princípio da mútua determinação, princípio e coisas são interdependentes, pelo fluxo relacional há a interfusão, pois não é possível separar verdade e falsidade, vacuidade e interdependência, pois ambas são o aspecto único e o único aspecto da realidade. Esse é o princípio da interfusão da realidade (yuán róng, 圓融).” (TSAI, 2024, p. 162).

Os conceitos filosóficos, quando dentro da razão natural, não têm significados fixos ou eternos. Eles são vazios de essência inerentemente existente e adquirem significação em redes relacionais. Analisar um termo em Paulo é, assim, investigar como ele se relaciona com outros termos no texto, como responde a situações práticas e como isso modifica e se interfunde com a tradição filosófica anterior.

4.3 Contextualização histórica e filosófica

O terceiro fluxo é a contextualização histórica e filosófica. A contextualização histórica busca compreender o que Paulo quis dizer em seu próprio contexto: quais problemas enfrentava, quais recursos intelectuais tinha disponíveis, a que tradições recorria. Esta dimensão é fundamental para evitar anacronismos e projeções distorcidas. A contextualização filosófica, por sua vez, se pergunta pelo que o texto pode dizer a nós hoje: que questões filosóficas aplicáveis ao nosso contexto de Administração ele levanta, que conceitos oferece para pensar problemas contemporâneos, como pode dialogar com outras tradições do pensamento. A Teoria de Rede Inter-relacional permite compreender que estas duas dimensões não se excluem, mas se determinam mutuamente. Como ensina o princípio do fluxo relacional:

“A condução do fluxo é feita de maneira autoconsciente dentro do domínio dos fluxos, a natureza, de maneira que há uma direção das ações de modo que exista um ponto de partida, um ponto de chegada e um critério de verificação” (TSAI, 2024, p. 159).

O ponto de partida é a investigação histórica; o ponto de chegada é a apropriação filosófica contemporânea; o critério de verificação é a coerência interna da interpretação e sua fecundidade para pensar os problemas atuais.

5. Exercício de Leitura: 1Coríntios 1–2 e o Górgias de Platão

Para ilustrar o método proposto, realizaremos um exercício de leitura comparativa entre dois textos: 1Coríntios 1–2 de Paulo e o Górgias de Platão. Ambos os textos tratam da questão da sabedoria (verdade convencional correta) em contraste com a retórica e o poder político (verdade aparente/convencional incorreta).

5.1 O vocabulário filosófico em 1Coríntios 1–2

Vejamos o texto com ênfase nos termos filosóficos de raiz cultural helenista:

“Onde está o sábio (sophos)? Onde está o escriba? Onde está o argumentador deste mundo? Deus não tornou louca a sabedoria (sophia) do mundo?” (1Cor 1,20)

“Os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria (sophia); nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1,22-23)

“Cristo é poder (dynamis) de Deus e sabedoria (sophia) de Deus” (1Cor 1,24)

“Falamos sabedoria (sophia) entre os perfeitos, sabedoria, porém, não deste mundo nem dos príncipes deste mundo, que se reduzem a nada; mas falamos a sabedoria de Deus, misteriosa e escondida” (1Cor 2,6-7)

Este vocabulário (sophia, dynamis) remete diretamente ao debate filosófico grego sobre a natureza da verdadeira sabedoria e sua relação com a retórica e o poder.

5.2 O Górgias de Platão: Retórica e Verdade

No diálogo Górgias, Platão apresenta um debate entre Sócrates e os sofistas sobre a natureza da retórica. Para Sócrates, a retórica praticada pelos sofistas não é uma verdadeira arte (techne), mas mera adulação (kolakeia), pois busca agradar aos ouvintes sem se preocupar com a verdade e com o bem da alma. Vejamos o trecho de Górgias. No contexto do trecho abaixo, Sócrates já irritou o sofista Górgias ao forçá-lo a admitir que um orador pode usar a retórica para fins injustos. Então, Polo, um admirador de Górgias, entra no debate para defender a retórica, e é a ele que Sócrates dirige a seguinte argumentação:

Sócrates: “Pois bem, Polo, queres que definamos a retórica como considero ser?”

Polo: “Como não?”

Sócrates: “Então, presta atenção. Digo que ela é uma certa prática que não é arte (atechnos pragmatéia), mas a de uma alma que é sagaz e corajosa por natureza e poderosa por natureza em seu trato com os homens; e chamo-a, em suma, de adulação (kolakeia). Parece-me que esta prática tem muitas outras partes, das quais uma é a culinária. Esta, com efeito, parece ser uma arte, mas, segundo meu argumento, não é arte, mas uma rotina empírica (empeiria). Dessa mesma prática são partes também a retórica, a indumentária e a sofística: uma, a culinária, em relação ao corpo; a outra, a retórica, em relação à alma.”

Polo: “Como assim, Sócrates? A culinária te parece ser a mesma coisa que a retórica?”

Sócrates: “De modo algum. A culinária é uma parte da adulação que diz respeito ao paladar; a outra, porém, que diz respeito à beleza física, é a indumentária; e a que se refere à alma, além da retórica, é, por um lado, a que diz respeito às leis e à justiça, a sofística; e, por outro lado, a ginástica e a medicina correspondem a essas, mas de modo contrário. Pois assim como aquelas quatro se dividem entre si, também estas, por sua vez, se organizam de modo análogo, visando sempre o melhor. Ora, a medicina visa o melhor para o corpo e a ginástica; a legislação, para a alma, e a justiça.” (Platão, Górgias: 463a-465d)3

Neste trecho, Sócrates estabelece uma lógica relacional interessante para a Administração. Artes Verdadeiras (technai) são a Medicina, a Ginástica, a Legislação e a Justiça. Elas se dedicam ao cuidado genuíno do corpo e da alma, respectivamente. Seu objetivo é o bem universal e coletivo (a saúde, a beleza natural, a lei justa, a alma justa). Por outro lado, como oposto complementar, temos as Adulações (kolakeiai), que são a Culinária, a Indumentária, a Sofística e a Retórica. Elas imitam as artes verdadeiras, mas seu objetivo não é o bem, e sim o prazer particular e individual. Elas estudam o que agrada para, em vez de curar ou melhorar, simplesmente satisfazer os desejos sensoriais e os anseios mais imediatos. Por exemplo, a culinária não se importa com a saúde, só com o sabor. A retórica não se importa com a justiça, só com a persuasão e a vitória. Portanto, no sentido do texto acima, a retórica praticada pelos sofistas não é uma técnica nobre para buscar a verdade, mas uma forma de bajulação que explora a ignorância da alma para obter poder e prazer, da mesma forma que a culinária explora a gula que vem do paladar que está no corpo, sem se importar com a saúde do mesmo corpo.

Agora precisamos nos perguntar em qual categoria está a nossa perspectiva da Administração. Ela está para o lado da retórica ou da sabedoria?

5.3 Análise comparativa à luz da Teoria de Rede Inter-relacional

O diálogo entre os dois textos, ou melhor, entre partes significativas de duas redes próprias, uma que é o fundamento e a outra que é o efeito final da fusão com a rede do cristianismo judaico, nos faz ver paralelos significativos:

Crítica da sabedoria mundana:

Tanto Paulo quanto Platão criticam uma sabedoria que é meramente aparente ou convencionalmente adequada para fins específicos individualistas. Platão critica os sofistas que confundem opinião (doxa) com conhecimento (episteme). Paulo critica a “sabedoria deste mundo” que não reconhece a loucura da cruz, ou seja, o valor da testemunha, um valor anti-sacrificial, que aquele da salvação de vem de Deus e para todos os seres humanos, de todos os tempos, lugares e culturas.

Reversão de valores:

Ambos operam uma reversão radical dos valores convencionais. Para Platão, o verdadeiro poder não é o de fazer o que se quer para obter prazer imediato, para satisfazer uma ansiedade, mas o de fazer o que é justo, o que é universal e correto. Para Paulo, o verdadeiro poder se manifesta na fraqueza da cruz, pelo testemunho do amor incondicional e imortal de Deus feito ser humano e que deseja a salvação de todos sem exceção, mas não sem um caminho de salvação pela fé.

Conhecimento como participação:

Em Platão, o conhecimento verdadeiro é participação nas ideias eternas (méthexis). Em Paulo, a verdadeira sabedoria é participação no mistério de Cristo, que os “príncipes deste mundo” não compreenderam (testemunha x sacrifício). A Teoria de Rede Inter-relacional nos ajuda a compreender esta aproximação não como “influência direta” (entre Paulo e Platão), mas como convergência cultural relacional:

“O caráter da unicidade é visto no seguinte excerto do Avatamsaka Sutra: ‘Ilimitados seres iluminados, no lugar da iluminação, ali estavam reunidos: pela habilidade de manifestar as luzes, e os sons inconcebíveis dos Budas, eles construíram redes com as mais finas joias, e delas surgiram todos os reinos da ação'” (Xuanzang, 大方廣佛華嚴經 [T10n0279_001]) (TSAI, 2024, p. 161).

Assim, Platão e Paulo são como joias diferentes na mesma rede, refletindo, cada um a seu modo, a mesma intuição fundamental sobre a insuficiência da sabedoria meramente humana e a necessidade de uma abertura para o transcendente. A interdependência relacional é mediada pelo ambiente cultural comum e pelas questões universais, coletivas, do bem comum, que ambos enfrentam.

Conclusão

A partir do percurso realizado nesta aula, podemos responder à pergunta inicial: Paulo pode ser lido como filósofo? Sim, desde que compreendamos “filosofia” não no sentido restrito de sistema acadêmico, mas no sentido relacional e interdependente de investigação racional contemporânea sobre as questões fundamentais da existência humana, como a verdade, o bem, a justiça, a sabedoria, o sentido da vida. A Teoria de Rede Inter-relacional nos ofereceu as ferramentas para compreender Paulo como um pensador relacional:

  • Situado em uma complexa rede de influências (helenismo, estoicismo, platonismo, judaísmo);

  • Com pensamento se expressa em um gênero dialógico e situacional (a carta) que utiliza conceitos filosóficos gregos atribuindo para eles um modo cristão de hermenêutica conceitual;

  • Com a coerência é a de uma rede de relações mutuamente determinantes;

  • Para o administrador, esta compreensão é importante porque Paulo ensina que todo pensamento é situado, que toda verdade convencional é relacional, que toda sabedoria que se pretende absoluta corre o risco de se tornar “loucura” na perspectiva divina do testemunho (não do sacrifício) da cruz realizada por Cristo;

  • A gestão contemporânea, frequentemente seduzida por modelos pretensamente universais e técnicas pretensamente neutras, tem muito a aprender com esta perspectiva relacional.

Nota sobre o uso de IA generativa:

Embora a CAPES ainda não tenha emitido uma portaria específica consolidada sobre o tema até este momento, os parâmetros adotados por agências como o CNPq, em sua Portaria nº 2.664 de 6 de março de 2026, (que institui a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq, estabelece, em seu Art. 6º, inciso III, ser obrigatório declarar o uso de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAG) de qualquer espécie e em qualquer fase do desenvolvimento da pesquisa (concepção, redação, análise de dados, submissão), especificando nos respectivos textos e exposições eletrônicas a ferramenta utilizada e a finalidade) e o Guia sobre uso ético da Inteligência Artificial Generativa na Pesquisa da ANPOCS estabelecem princípios fundamentais aplicáveis: transparência, autoria humana, responsabilidade do pesquisador e verificação dos conteúdos gerados. Diante desse panorama normativo, informamos as nossas exposições contam com a colaboração da ferramenta de inteligência artificial generativa DeepSeek (modelo R1), empregada exclusivamente como suporte técnico para auxiliar na organização da estrutura textual, na sistematização de conteúdos (tabelas) e na sugestão de formulações preliminares. Todo o conteúdo gerado pela IA foi rigorosamente revisado, validado e editado pelo autor (Plínio Marcos Tsai), que assume integral responsabilidade pela precisão, coerência e adequação acadêmica do material final. O uso da IA não substituiu o juízo crítico, a expertise em Filosofia dentro do registro religioso do budismo chinês e da análise filosófica do autor, tendo funcionado apenas como ferramenta auxiliar no processo de edição e formatação textual. A declaração deste uso atende aos princípios de transparência e integridade científica exigidos pelas agências de fomento à pesquisa no Brasil. 

Referências

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

PLATÃO. Górgias. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2002.

TSAI, Plínio Marcos. O Tao da China na Modernidade: uma hermenêutica do indivíduo da modernização com características chinesas pela teoria de rede inter-relacional. 2020. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2020.

TSAI, Plínio Marcos. Os elementos da rede budista-taoísta na Filosofia da Teoria de Rede Inter-relacional. Modernos & Contemporâneos: Revista de Filosofia do IFCH da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, v. 8, n. 18, p. 147-165, jan./jun. 2024.

Bibliografia Complementar

CLEARY, Thomas. The Flower Ornament Scripture: A Translation of the Avatamsaka Sutra. Boston: Shambala, 1993.

COOK, Francis H. Hua-yen Buddhism: The Jewel Net of Indra. Pennsylvania: Penn State Press, 1977.

FERRARO, Giuseppe. Versos Fundamentais do Caminho do Meio: Mūlamadhyamakakārikā de Nāgārjuna. Campinas: Phi, 2016.

FLORENTINO NETO, Antonio. Predicação e relação como fundamentos da Filosofia da Escola de Kyoto. In: FLORENTINO NETO, Antonio; GIACOIA JR., Oswaldo (Orgs.). A Escola de Kyoto e suas fontes orientais. Campinas: Phi, 2017. p. 201-230.

LÉON-DUFOUR, Xavier (Dir.). Vocabulário de Teologia Bíblica. Petrópolis: Vozes, 1972.

LOUNDO, Dilip. A Noção de Superimposição (samāropa) em Nāgārjuna e Candrakīrti. In: FLORENTINO NETO, Antonio; GIACOIA JR., Oswaldo (Orgs.). A Escola de Kyoto e suas fontes orientais. Campinas: Phi, 2017. p. 159-180.

TSAI, Plínio Marcos. Zhuangzi e a desconstrução da substancialidade nos paradoxos lógicos de Huizi. 2016. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2016.

1 Disciplina: Filosofia e Administração da Universidade Metodista de São Paulo; Curso: Graduação em Administração

2 Professor da Pós-Graduação em Ciências da Religião e da Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Professor da Graduação da Administração e Teologia da Universidade Metodista de São Paulo. Diretor-Secretário do Centro de História da Filosofia Moderna e Contemporânea da Universidade Estadual de Campinas – CEMODECON – Fausto Castilho.

3 Referência da tradução usada: PLATÃO. Górgias. Tradução, ensaio introdutório e notas: Daniel R. N. Lopes. São Paulo: Perspectiva; FAPESP, 2011. (Coleção Textos; v. 19).

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