Aula 4 e 5 – Antropologia Filosófica e o problema do humano

Antropologia Filosófica e o problema do humano

Uma perspectiva da Filosofia da Rede Inter-relacional1

Plínio Marcos Tsai2

Para referência ABNT (formato on‑line)

TSAI, Plínio Marcos. Antropologia Filosófica e o problema do humano: uma perspectiva da filosofia da rede inter-relacional. Plínio Marcos Tsai, São Paulo, 2026. Disponível em: https://plinio.pramana.org.br/fa4-antropologia-filosofica-e-o-problema-do-humano/. Acesso em: (indicar – mês da sua pesquisa), (indicar – ano da sua pesquisa).

 

Resumo

A presente exposição tem por objetivo investigar a Antropologia Filosófica como disciplina fundamental para a compreensão do ser humano nas organizações. A partir da Teoria de Rede Inter-relacional (TSAI, 2024), analisamos as diferentes concepções de ser humano que orientam, implícita ou explicitamente, as teorias administrativas. Iniciamos distinguindo a Antropologia Filosófica da Antropologia Cultural e Biológica, situando a pergunta (kantiana) “O que é o ser humano?” como eixo principal. Em seguida, vemos os principais tipos antropológicos na história da filosofia: o animal racional (Aristóteles), o sujeito pensante (Descartes), o ser social (Marx), o ser para a morte (Heidegger) e o ser de desejo (Freud). Na terceira seção, aplicamos esta reflexão às ciências administrativas, demonstrando que toda teoria administrativa contém uma antropologia implícita (homo economicus, homo faber) e que a redução antropológica opera como violência (simbólica) nas organizações.

 

Introdução

Toda teoria administrativa, conscientemente ou não, parte de uma concepção do ser humano. Seja ao definir metas, estruturar hierarquias, estabelecer sistemas de recompensa ou desenhar processos de avaliação, o gestor está sempre respondendo a uma pergunta fundamental: quem é o ser humano que trabalha? Esta pergunta, no entanto, raramente é explicitada.

As teorias administrativas tendem a apresentar-se como técnicas neutras, como conjuntos de procedimentos cuja validade independe de pressupostos antropológicos. A ilusão da neutralidade técnica, que já problematizamos anteriormente, encontra aqui sua expressão mais perigosa: a redução do ser humano a uma função, a um recurso, a um fator de produção.

A Filosofia da Rede Inter-relacional (TSAI, 2024) oferece alguns instrumentos de análise para desconstruir esta ilusão. Ao postular que a realidade é composta por redes de relações mutuamente determinantes, a teoria nos permite compreender o ser humano como uma configuração constituída por uma rede inter-relacional que se constitui na e pelas relações com o mundo, com os outros, com o trabalho, com o transcendente, e não como um ente fixo com propriedades definitórias eternas.

O objetivo desta exposição é, portanto, de explicar as diferentes antropologias que operam nas teorias administrativas, analisar criticamente suas implicações e abrir caminho para uma compreensão inter-relacional do ser humano, inspirada na tradição filosófica budista e taoísta, de maneira geral, e na filosofia da religião cristã paulina, de maneira detalhada e específica.

1. O que é Antropologia Filosófica?

1.1 Diferença entre Antropologia Cultural, Biológica e Filosófica

É necessário distinguir três domínios de redes que, embora próximos, têm objetos e perspectivas hermenêuticas distintas. A Antropologia Cultural dedica-se ao estudo das diferentes culturas humanas, seus costumes, símbolos e instituições, utilizando métodos como a etnografia e a observação participante. A Antropologia Biológica, por sua vez, investiga o ser humano como espécie animal, sua evolução, genética e fisiologia, empregando as perspectivas das ciências naturais, como a medição e a experimentação. Já a Antropologia Filosófica busca compreender a essência ou natureza do ser humano, sua condição, seus limites e possibilidades, por meio da reflexão racional, da análise conceitual, da fenomenologia e, no nosso caso, da filosofia da hermenêutica contemporânea.

Enquanto as antropologias cultural e biológica investigam o ser humano em sua facticidade (como o ser humano é de fato), a antropologia filosófica pergunta pelo seu sentido (o que ele é em sua essência, o que pode vir a ser, qual seu lugar no cosmos). Como observa um estudo recente sobre antropologia fenomenológica. Durante muitas décadas, foi comum considerar a fenomenologia como uma filosofia centrada na subjetividade e na consciência isolada. Não se pode ignorar que a fenomenologia, menos voltada para questões do conhecimento, da lógica ou da filosofia da matemática, busca na verdade uma compreensão total do ser humano que conhece, dos valores que o orientam, da cultura que produz e do significado que ele dá à própria existência (Morujão, 2020).

1.2 A Pergunta Kantiana: “O Que é o Ser Humano?”

O filósofo Immanuel Kant (1724-1804) sistematizou as questões fundamentais da filosofia em quatro perguntas: “O que posso saber?” (respondida pela Metafísica), “O que devo fazer?” (respondida pela Ética), “O que posso esperar?” (respondida pela Religião) e, finalmente, “O que é o ser humano?” (respondida pela Antropologia). Para Kant, as três primeiras perguntas convergem para a quarta, pois todo conhecimento, toda ação e toda expectativa pressupõem uma compreensão daquele que conhece, age e espera (Kant, 2006). A antropologia filosófica é, assim, o coração da filosofia: todas as demais questões a ela se subordinam.

1.3 As Quatro Determinações Fundamentais

A tradição fenomenológica contemporânea identifica quatro dimensões da identidade que são fundamentais do ser humano, que constituem o ponto de partida para qualquer reflexão antropológica consistente (Morujão, 2020).

A primeira dimensão é a corporeidade. O ser humano não tem um corpo; ele é corpo. A corporeidade é a própria condição de nossa existência no mundo. É pelo corpo que nos situamos, que percebemos, que agimos, que nos relacionamos. Como observa o estudo sobre fenomenologia o ser humano é um ser incarnado, e por isso mesmo aberto ao mundo (Morujão, 2020).

A segunda dimensão é a sociabilidade. O ser humano não pode existir de maneira isolada. Somos seres relacionais, constituídos pelas relações com os outros. A solidão é uma abstração, uma vez que, materialmente, existimos sempre em redes de inter-relacionalidade identitária. Assim, dentro da perspectiva investigativa da fenomenologia o objeto investigado é o como surgem os outros e como se dá a experiência da alteridade (Morujão, 2020).

A terceira dimensão é a historicidade. O ser humano é temporal. Não existimos num presente eterno, mas num fluxo que articula passado (tradição, memória), presente (decisão, ação) e futuro (projeto, expectativa). A historicidade implica que a natureza humana não é fixa, ela está sempre submetida a impermanência das relações e fatos que constituem a sua história (o tempo).

A quarta dimensão é a transcendência. O ser humano é o único ser que pode ir além de si mesmo. Transcendência significa poder usar de uma projeção (samāropa) para poder se ver no futuro, poder colocar-se no lugar do outro, poder questionar o dado e buscar o sentido, poder abrir-se ao infinito, ao absoluto, a Deus, e assim por diante.

Estas quatro determinações são dimensões inter-relacionais de uma mesma realidade em rede. Na perspectiva da Filosofia da Teoria de Rede Inter-relacional, elas se determinam mutuamente: a corporeidade é sempre histórica e social, e a sociabilidade é sempre corporificada e transcendente, de modo que a historicidade é sempre vivida no corpo e na relação com os outros. O sentido da vida, a transcendência da incompletude existencial humana, só se dá a partir da imanência do mundo (Tsai, 2024).

2. Tipos Antropológicos na História da Filosofia

Ao longo da história da filosofia, diferentes pensadores propuseram diferentes respostas à pergunta “o que é o ser humano?”. Cada resposta enfatiza uma dimensão particular, constituindo o que podemos chamar de “tipos antropológicos”. Para esta análise, seguimos a classificação proposta por Francis Wolff (2017), que desenvolve uma análise aristotélica ligada a academia francesa de filosofia, centrada na antropologia filosófica, que identifica diferentes concepções na história da filosofia.

2.1 O animal racional (Aristóteles)

Para Aristóteles (384-322 a.C.), o ser humano é definido como “animal racional” (zoon logon). Esta definição articula duas dimensões fundamentais. De um lado, a animalidade: o ser humano compartilha com os demais seres vivos as funções nutritiva, reprodutiva e sensitiva. Não somos espíritos celestiais, mas seres vivos, corporificados, sujeitos às necessidades biológicas. De outro lado, a racionalidade é o que nos distingue dos outros animais é a posse da razão (logos), que nos permite pensar, deliberar, escolher e agir segundo fins conscientes.

Para Aristóteles, a alma (psique) é a forma do corpo, e ambos constituem uma unidade substancial (Aristóteles, 1991). Não há dualismo entre o corpo e a alma, o ser humano é visto aqui como uma unidade hilemórfica (matéria e forma). A racionalidade, então, é a atualização das potencialidades do corpo vivo.

As implicações para as ciências administrativas são tais que o trabalhador não é apenas mão de obra (animalidade), nem apenas mente (racionalidade), mas a unidade de ambas. As organizações devem considerar tanto as necessidades biológicas (saúde, ergonomia, salário digno) quanto as capacidades racionais (autonomia, participação em decisões, desenvolvimento intelectual).

2.2 O sujeito pensante (Descartes) e o dualismo

René Descartes (1596-1650) inaugura a filosofia moderna com sua ênfase no sujeito pensante. Sua antropologia é marcada por um dualismo radical entre duas substâncias. A res cogitans (coisa pensante) é a alma, a mente, o pensamento: imaterial, indivisível, imortal, cuja essência é o pensamento. A res extensa (coisa extensa) é o corpo, a matéria: material, divisível, mortal, cuja essência é a extensão no espaço.

A fórmula “Penso, logo existo” (cogito, ergo sum) expressa esta primazia da consciência, onde a primeira certeza é a da existência do eu pensante; a existência do corpo é derivada e problemática (Descartes, 1991). No entanto, estudos recentes mostram que o dualismo cartesiano é mais complexo do que a crítica posterior supôs. Descartes afirma também uma união substancial entre alma e corpo: “Não me encontro no meu corpo como um piloto se encontra na sua nave, mas estou a ele estreitissimamente unido e quase com ele misturado, de modo a compor algo uno” (Meditação Sexta, apud Simha, 2009). Esta tensão entre dualismo e união atravessa toda a obra cartesiana, levando-o a postular a glândula pineal como ponto de contato entre as duas substâncias (Simha, 2009).

Vejamos algumas implicações para as ciências administrativas. O dualismo cartesiano, em sua versão comum, está na base de muitas práticas organizacionais que separam radicalmente o “planejamento” (mente) da “execução” (corpo). A tradição taylorista, que separa quem pensa de quem faz, é herdeira desta antropologia dualista. A questão da “qualidade de vida no trabalho” emerge como tentativa de recompor esta unidade fraturada.

O taylorismo, ou administração científica, foi um modelo de gestão desenvolvido por Frederick Winslow Taylor no final do século XIX. Sua essência está na racionalização do trabalho: dividir tarefas, cronometrar movimentos, separar rigidamente o planejamento (realizado pela gerência) da execução (realizada pelos operários) e buscar a máxima eficiência produtiva.

Esse modelo se alia ao dualismo cartesiano (a separação radical entre mente e corpo proposta por Descartes) porque a mente (gerência, planejamento) é vista como a instância que pensa, organiza e comanda, e o corpo (trabalhador) é reduzido a mero instrumento físico, desprovido de autonomia intelectual, cabendo-lhe apenas executar movimentos pré-determinados.

Assim, a administração científica aplica, no chão de fábrica, a cisão cartesiana: de um lado a atividade racional e dirigente e, do outro, uma execução mecânica e passiva, tratando o trabalhador como extensão da máquina.

2.3 O ser social (Marx)

Karl Marx (1818-1883) propõe uma antropologia radicalmente diferente: o ser humano é essencialmente ser social. Não há natureza humana abstrata e eterna, o que chamamos de natureza humana é sempre o produto das relações sociais concretas em que os indivíduos vivem, isso é chamado de materialismo histórico. Em suas Teses sobre Feuerbach, Marx afirma: “O ser humano é o conjunto das relações sociais” (Marx, 2004).

Para Marx, o trabalho é a categoria antropológica fundamental e é pelo trabalho que o ser humano transforma a natureza. E, ao transformá-la, ele transforma a si mesmo. O trabalho é autocriação do ser humano. No entanto, sob o capitalismo, o trabalho torna-se alienado, ou seja, o trabalhador não se reconhece no produto de seu trabalho, que lhe é estranho e contra ele se volta. Esta alienação não é apenas econômica, mas antropológica uma vez que o ser humano é separado de sua própria essência.

Vejamos algumas implicações para a as ciências administrativas. As organizações não são neutras, elas produzem determinados tipos de seres humanos. A divisão do trabalho, as hierarquias, os sistemas de recompensa não apenas organizam a produção, mas determinam as subjetividades. A crítica da alienação permanece atual: em que medida o trabalho contemporâneo promove ou impede o desenvolvimento integral do ser humano? É uma questão que precisamos parar para refletir constantemente.

2.4 O ser para a morte (Heidegger)

Martin Heidegger (1889-1976) propõe uma analítica existencial do ser humano, a que chama Dasein (ser-aí). Para Heidegger, a característica fundamental do ser humano é a temporalidade e, particularmente, a relação com a morte. O ser humano é o único ser que sabe que vai morrer. Esta consciência da finitude não é um acréscimo posterior à existência, mas sua estrutura fundamental. Somos ser-para-a-morte (Sein-zum-Tode). A autenticidade consiste em assumir esta finitude e viver cada momento como único e insubstituível, em vez de fugir para a impessoalidade do “se diz”, “se faz” (HEIDEGGER, 2012).

Vejamos as implicações para as ciências administrativas. As organizações tendem a funcionar como mecanismos de fuga da finitude, com coisas como metas infinitas, crescimento perpétuo, produtividade sem limites. A antropologia heideggeriana nos lembra que os trabalhadores são seres finitos, com tempo limitado, que precisam escolher a cada momento o que fazer de suas vidas. A gestão do tempo, do estresse e do burnout ganha nova dimensão quando compreendida a partir da finitude.

2.5 O ser de desejo (Freud)

Sigmund Freud (1856-1939) revoluciona a antropologia ao mostrar que o ser humano não é transparente a si mesmo. Somos habitados por um inconsciente que escapa ao controle da consciência. O ser humano é essencialmente ser de desejo, e o desejo, por definição, é aquilo que nunca se satisfaz plenamente (Freud, 2010).

A psicanálise revela que não somos senhores em nossa própria casa. Há forças que nos movem sem que as conheçamos. A racionalidade é apenas a ponta do vulcão submerso, a maior parte de nossa vida psíquica é inconsciente. A cultura (as organizações) se constroem sobre a repressão e a sublimação dos desejos. A fenomenologia contemporânea dialoga com a psicanálise para compreender os instintos, os aspectos biológicos e fisiológicos, a indiferenciação da estrutura pulsional e as sínteses passivas (Morujão, 2020).

Vejamos as implicações para as ciências administrativas. As teorias motivacionais baseadas apenas em incentivos racionais são insuficientes. A liderança envolve compreender dinâmicas inconscientes como a identificação, a transferência, a projeção. Conflitos organizacionais frequentemente têm raízes em dimensões não racionais. O sofrimento no trabalho não é apenas físico ou cognitivo, mas também psíquico.

3. Antropologia e Administração

3.1 Toda teoria administrativa contém uma antropologia implícita

Aplicando a Teoria de Rede Inter-relacional, podemos afirmar que as teorias administrativas não são apenas conjuntos de técnicas, mas redes conceituais que incluem, necessariamente, uma concepção do ser humano. Esta concepção pode estar explícita ou implícita, consciente ou inconsciente, mas está sempre presente. O princípio da mútua determinação (pratityasamutpāda) nos ajuda a compreender esta relação: assim como a antropologia determina a teoria administrativa, a prática administrativa, por sua vez, retroage sobre a antropologia, produzindo determinados tipos de seres humanos (TSAI, 2024).

Podemos identificar três tipos antropológicos recorrentes nas teorias administrativas. O primeiro é o homo economicus: um ser racional movido exclusivamente por interesses próprios e incentivos econômicos. Este tipo antropológico está associado ao taylorismo, à teoria da agência3 e à gestão por metas4.

O segundo é o homo faber, um ser que se realiza no trabalho bem-feito, que encontra satisfação na produção. Este tipo está presente na escola das relações humanas e na teoria da motivação de Herzberg5.

O terceiro é o homem funcional, um ser definido por sua função na organização, redutível a seu papel no organograma. Este tipo caracteriza o estruturalismo6, a teoria dos sistemas7 e as abordagens burocráticas8.

Cada um destes tipos é uma redução que enfatiza uma dimensão do ser humano em detrimento das demais. O homo economicus reduz o ser humano ao cálculo racional e ao interesse próprio. O homo faber reduz ao trabalho produtivo. O homem funcional reduz ao papel social. Nenhum deles capta a integralidade das quatro determinações fundamentais (corporeidade, sociabilidade, historicidade, transcendência).

3.2 A redução antropológica como violência simbólica

Quando uma organização opera com base em uma antropologia redutora, ela exerce sobre seus membros a violência simbólica, que é a imposição de significações que legitimam a dominação, fazendo com que os dominados percebam a realidade social de acordo com as categorias dos dominadores (Foucault, 1981).

A violência simbólica na administração se manifesta de diversas formas. Manifesta-se quando o trabalhador internaliza a ideia de que é apenas um recurso humano. Manifesta-se quando a pessoa aceita como natural ser tratada como função descartável, ou quando a identidade pessoal é reduzida à posição no organograma, ou ainda quando a dignidade humana é subordinada à produtividade.

A Teoria de Rede Inter-relacional, com seu princípio da vacuidade (śūnyata) , oferece uma crítica radical a estas reduções, uma vez que “a vacuidade é a relacionalidade absoluta, a ausência completa de quaisquer substâncias últimas e de qualquer característica ontológica metafísica imutável” (Tsai, 2024, p. 150). O ser humano não é uma substância fixa que possa ser definitivamente apreendida por qualquer definição (homo economicus, homo faber etc.). Ele é uma vacuidade de essência última e, portanto, aberto à infinitas possibilidades de suas determinações relacionais, a sua verdade riqueza. Reduzi-lo a qualquer definição unívoca é exercer violência contra sua própria natureza relacional.

4. A antropologia paulina como alternativa integral

4.1 A perenidade da pergunta antropológica

A partir do percurso realizado, podemos perceber que a pergunta “o que é o ser humano?” permanece aberta. Cada resposta filosófica ilumina uma dimensão, mas nenhuma esgota a questão. O ser humano é animal racional (Aristóteles), sujeito pensante (Descartes), ser social (Marx), ser para a morte (Heidegger), ser de desejo (Freud). Mas será que estas dimensões podem ser integradas em uma visão inter-relacional?

4.2 A antropologia paulina trinitária do corpo, da alma e do espírito

O apóstolo Paulo oferece, em suas cartas, elementos para uma antropologia inter-relacional que pode iluminar nossa reflexão sobre a gestão. O texto fundamental encontra-se em 1 Tessalonicenses 5,23: “Que o próprio Deus da paz vos santifique completamente, e que todo o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (Bíblia, 2002).

Esta tripartição (corpo, alma e espírito) não deve ser compreendida como uma divisão em partes justapostas, mas como dimensões inter-relacionais da configuração unitária humana.

O corpo (soma) é a dimensão material, a inserção no mundo, a corporeidade que nos situa e nos relaciona com a criação. Não é apenas matéria inerte, mas o templo do Espírito Santo (1Cor 6,19).

A alma (psyche) é a dimensão psíquica, o centro das emoções, dos afetos, da individualidade psicológica. É o princípio da vida animal, que compartilhamos com os demais seres vivos.

O espírito (pneuma) é a dimensão relacional por excelência, a abertura para o transcendente, a capacidade de entrar em comunhão com Deus e com o próximo. É pelo espírito que o ser humano é imagem de Deus (imago Dei).

A antropologia paulina, à luz da Teoria de Rede Inter-relacional, pode ser compreendida como uma rede trinitária de relações, com o corpo, alma e espírito que não são tomadas como camadas sobrepostas, mas dimensões que se interpenetram e se determinam mutuamente, como em uma rede multidimensional. Assim como na rede de Indra cada joia reflete todas as demais (TSAI, 2024), no ser humano cada dimensão reflete e é refletida pelas outras.

4.3 A integralidade como horizonte para a administração

Para o pesquisador das ciências administrativas, a antropologia paulina oferece um horizonte crítico e normativo. Em primeiro lugar, ela permite uma crítica das reduções: nenhuma teoria administrativa pode reduzir o ser humano a apenas uma de suas dimensões. O homo economicus reduz o ser humano à alma (cálculo racional) ignorando corpo e espírito. O homo faber reduz ao trabalho do corpo, ignorando alma e espírito. O homem funcional reduz ao papel social, ignorando a singularidade irrepetível de cada pessoa.

Em segundo lugar, ela afirma a integralidade como critério, assim, as organizações saudáveis são aquelas que consideram o ser humano em sua totalidade, ou seja, que cuidam do corpo (saúde, ergonomia, condições físicas), da alma (emoções, relações, reconhecimento) e do espírito (sentido, propósito, transcendência).

Em terceiro lugar, ela fundamenta a dignidade inalienável da pessoa, ou seja, se o ser humano é imagem de Deus, sua dignidade não deriva de seu desempenho, produtividade ou utilidade. Ela é anterior e superior a qualquer função que ele ocupe na organização. Mas será que essa posição é sustentável diante do neoliberalismo tardio?

Conclusão

A Antropologia Filosófica nos ensina que o ser humano é, em última instância, um mistério, mas não no sentido de algo que não pode ser conhecido, no sentido de algo cujo conhecimento nunca se esgota. A noção de humanidade é muito ampla e muito aberta, para se definir o que se configura como um ser humano submetido há uma única definição absoluta (Viana, 2024).

Para o administrador, esta consciência do mistério humano tem implicações práticas profundas. A primeira é a humildade epistemológica. Nenhuma teoria, nenhum modelo, nenhuma técnica captura completamente a realidade humana. É preciso manter-se aberto ao que escapa, ao que surpreende, ao que não se deixa reduzir. A segunda é o respeito mantido como princípio permanente. Se o ser humano é sempre mais do que qualquer definição, então cada pessoa merece ser tratada com o respeito devido à sua dignidade inefável. A terceira é a busca do sentido. Para além da eficiência e da produtividade, as organizações existem para servir ao desenvolvimento integral das pessoas, ou seja, do corpo, da alma e do espírito.

A Teoria de Rede Inter-relacional nos lembra que o ser humano é como uma joia na rede de Indra, uma vez que reflete todas as outras joias e é por elas refletido (Tsai, 2024). Não há isolamento, não há autossuficiência, não há substância fixa. Há apenas fluxos e elementos em inter-relação constante e sempre abertas ao novo.

 

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Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Pensadores).

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Pensadores).

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2012.

KANT, Immanuel. Antropologia de um ponto de vista pragmático. Tradução de Clélia Aparecida Martins. São Paulo: Iluminuras, 2006.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004.

MORUJÃO, Carlos. Antropologia filosófica: uma perspetiva a partir da fenomenologia. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020. (Coleção Estudos de Filosofia).

SIMHA, André. A consciência do corpo ao sujeito: análise da noção, estudo de textos: Descartes, Locke, Nietzsche, Husserl. Petrópolis: Vozes, 2009.

TSAI, Plínio Marcos. O Tao da China na Modernidade: uma hermenêutica do indivíduo da modernização com características chinesas pela teoria de rede inter-relacional. 2020. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2020.

TSAI, Plínio Marcos. Os elementos da rede budista-taoísta na Filosofia da Teoria de Rede Inter-relacional. Modernos & Contemporâneos: Revista de Filosofia do IFCH da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, v. 8, n. 18, p. 147-165, jan./jun. 2024.

VIANA, Wellistony Carvalho. Estrutura, ser e pessoa. São Paulo: Loyola, 2024.

WOLFF, Francis. Nossa humanidade: de Aristóteles às neurociências. Tradução de João Carlos Pijnappel. São Paulo: Unesp, 2017.

1 Disciplina: Filosofia e Antropologia; Curso: Graduação em Administração da Universidade Metodista de São Paulo

2 Professor da Pós-Graduação em Ciências da Religião e da Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Professor da Graduação da Administração e Teologia da Universidade Metodista de São Paulo. Diretor-Secretário do Centro de História da Filosofia Moderna e Contemporânea da Universidade Estadual de Campinas – CEMODECON – Fausto Castilho.

3 A teoria da agência (ou agency theory) estuda a relação entre duas partes, a principal, que é aquela de quem detém recursos ou propriedade (ex.: acionistas, donos da empresa), e aquela do agente: quem é contratado para agir em nome do principal (ex.: gestores, executivos). O problema central é o conflito de interesses, uma vez que o agente pode buscar seus próprios benefícios (como prestígio, estabilidade ou ganhos pessoais) em vez de maximizar o retorno do principal. Além disso, há assimetria de informação, pois o agente geralmente sabe mais sobre suas ações do que o principal. Para minimizar esse conflito, a teoria sugere mecanismos de governança, como contratos de incentivo (participação nos lucros, stock options), monitoramento e prestação de contas.

4 A gestão por metas (ou management by objectives ou MBO) foi popularizada por Peter Drucker. É um modelo de administração onde se definem objetivos claros de forma conjunta entre líderes e colaboradores. As metas devem ser específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e com prazo definido (SMART). O foco está no resultado a ser alcançado, não no controle rígido do método de trabalho. Há avaliação periódica do desempenho com base no cumprimento das metas. Diferente do taylorismo (que separa radicalmente planejamento (gerência) e execução (operário)) a gestão por metas valoriza a participação do colaborador na definição dos objetivos e confere certa autonomia para alcançá-los, embora mantenha forte ênfase nos resultados mensuráveis.

5 A teoria da motivação de Herzberg, também denominada teoria dos dois fatores, distingue os fatores higiênicos (extrínsecos), relacionados ao contexto do trabalho tais como salário, condições físicas, políticas da empresa e relações interpessoais; cuja ausência gera insatisfação, mas a presença apenas evita a insatisfação sem motivar; e os fatores motivacionais (intrínsecos), ligados ao conteúdo do trabalho tais como realização, reconhecimento, responsabilidade, crescimento profissional e o próprio significado da tarefa e que, quando presentes, produzem satisfação e motivação duradoura. O princípio central é que a melhoria dos fatores higiênicos não assegura motivação, sendo necessário atuar sobre os fatores motivacionais para obter engajamento efetivo.

6 Estruturalismo, é abordagem teórica que privilegia a análise das estruturas subjacentes aos fenômenos culturais, sociais e linguísticos, em detrimento da história ou da ação individual. Inspirada sobretudo na linguística de Saussure, propõe que os elementos de um sistema só adquirem sentido pelas relações de oposição e diferença que mantêm entre si dentro de uma totalidade organizada. Nas ciências humanas e na administração, o estruturalismo influenciou a compreensão das organizações como sistemas formais de funções inter-relacionadas, destacando a lógica interna e as regras anônimas que regulam o funcionamento institucional.

7 Teoria dos sistemas é a concepção teórica que analisa as organizações e os fenômenos como sistemas abertos ou fechados, compostos por partes interdependentes que interagem entre si e com o ambiente externo. Desenvolvida a partir dos trabalhos de Ludwig von Bertalanffy, essa perspectiva rompe com visões mecanicistas (como o taylorismo) ao enfatizar a complexidade, os fluxos de informação, a retroalimentação (feedback) e a capacidade de adaptação do sistema. Na gestão, permite compreender a organização como um conjunto integrado de subsistemas (técnico, humano, estrutural etc.) em constante intercâmbio com o contexto.

8 Abordagens burocráticas, se refere aos modelos de organização baseados nos princípios da burocracia racional-legal formulados por Max Weber. Caracterizam-se pela divisão sistemática do trabalho, hierarquia definida, regras impessoais, seleção por mérito técnico, documentação formal e carreira profissional. Embora se contraponham ao carisma e à tradição, essas abordagens são criticadas por sua rigidez, tendência ao formalismo excessivo e disfunções como a “burocratização” como fenômeno em que os meios se tornam mais importantes que os fins, gerando ineficiência e resistência à inovação.

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